A década de 1960 é um período de contestação, de lutas estudantis na Europa e América Latina, do movimento hippie, do movimento por direitos civis nos EUA, de Ernesto "Che" Guevara, da Guerra do Vietnã e da invasão da Tchecoslováquia pelos exércitos do Pacto de Varsóvia (comandados pela antiga URSS), que liquidaram a "Primavera de Praga", em 1968, considerado o ponto alto da efervescência que tomou conta do mundo de então, e cujos desdobramentos se fazem presentes nos dias de hoje.
Ao mesmo tempo surgia no mundo uma forma de contestação pacífica, era o movimento hippie. Para chocar o cidadão médio, guardião dos valores tradicionais, os hippies deixavam crescer barbas e cabelos, vestiam roupas de algodão colorido, rejeitavam os bens da sociedade industrial e ignoravam as normas tradicionais para o casamento, pregando uma revolução sexual com o famoso lema "Paz e amor", influenciados pelo psiquiatra e psicanalista Wilhelm Reich, que em sua obra A função do orgasmo propunha a liberação do corpo e da mente através da energia sexual. Era a chamada contracultura.
O Brasil vivia um momento extraordinário de efervescência e criatividade. A partir de 1967, um novo gênero musical firmou-se no país: a canção de protesto. O mais famoso compositor do estilo foi Geraldo Vandré, com a clássica Pra não dizer que não falei de flores. Surgia também o tropicalismo, movimento que aceitava todas as influências possíveis da contracultura. Fossem elas musicais ou não. Assim, os tropicalistas, liderados por Caetano Veloso e Gilberto Gil, adotaram novos instrumentos, como as guitarras elétricas, e um modo de vestir parecido com o dos hippies.
Até que o AI-5 acabasse com a liberdade de expressão em 1968, tolhendo as atividades artísticas e intelectuais. Na universidade, o Decreto Lei nº 477, de 1969, calou estudantes e professores. A censura se abateu sobre os meios de comunicação, o teatro, o cinema e a música popular. Muitos veículos de comunicação resistiram na medida do possível, mas foram obrigados a aceitar a presença de censores no interior de suas redações. É famoso o caso do jornal O Estado de S. Paulo, que publicava versos de Camões ou receitas culinárias no espaço que deveria ser ocupado por artigos ou notícias. O compositor Chico Buarque de Hollanda foi um dos mais perseguidos pela "tesoura" dos censores, tendo grande número de músicas vetadas - inclusive Apesar de você, música que Zuzu estava ouvindo quando sofre o "acidente" no fim do filme.
O filme em sala de aula
Atividades para o tema "Cultura & Juventude"
Atividade 1
Acompanhando as imagens iniciais do filme, há uma música.
Se possível, peça aos alunos que a ouçam e procurem a letra completa.
Pergunte que relação eles vêem entre a escolha dessa música e as imagens apresentadas. O que essa escolha pode estar nos dizendo sobre o momento histórico brasileiro e mundial?
Dê um rolê" é uma gíria utilizada na época. O que ela significa? Ela é usada ainda hoje? Que gírias eles empregam, ou conhecem, com o mesmo significado?
A que movimento da época o verso "Eu sou amor da cabeça aos pés" pode estar se referindo?
Dê um rolê
Galvão e Moraes Moreira
Não se assuste pessoa
Se eu lhe disser que a vida é boa
[...]
Enquanto eles se batem
Dê um rolê e você vai ouvir
Apenas quem já dizia:
Eu não tenho nada
Antes de você ser eu sou
Eu sou, eu sou amor da cabeça aos pés
[...]
Gal, Fa - tal a todo vapor, Philips, 1971.
Os Novos Baianos, Final do juízo. Polygram, Compacto simples,1971
Atividade 2
Em conversa com Stuart, na loja em construção, após a prisão de Sonia, Zuzu diz: "Um grupo de jovens da classe média do Rio de Janeiro 'decidiu' que vai fazer uma revolução no Brasil. E meu filho é um deles".
Peça aos alunos que imaginem que esse diálogo entre mãe e filho se passa hoje e que dêem continuidade a essa conversa. Proponha que escrevam, em duplas, um pequeno texto para ser dramatizado para a turma. Sugira que explorem o tema "esquerda" × "direita" (denominações surgidas na época da Revolução Francesa); quem são os grupos que lutam por direitos hoje, lembrando que as ONGs são novos atores na cena política e social.
Atividade 3
Durante a ditadura no Brasil, muitas músicas foram censuradas. Algumas letras passavam pelos censores, mas traziam uma mensagem sobre os acontecimentos, para aqueles que conseguiam ler nas entrelinhas.
Apresente trechos das músicas abaixo aos alunos.
Música 1 - Apesar de você - Chico Buarque - 1970
Observação: Canção que aparece no final do filme, quando Zuzu sai de seu ateliê e, no túnel, coloca a fita que ganhou de Chico Buarque. A letra passou pela censura e foi gravada em um compacto, em 1970. Mas logo o disco foi apreendido, quando um jornal insinuou que a música era uma homenagem ao presidente Médici: "Você é quem manda". Foi regravada do LP de 1978. Há referências à repressão e ao momento histórico em todos os versos; os alunos poderão identificá-los com certa facilidade. Chamar a atenção para o duplo sentido da palavra "estado", empregada para designar condição emocional, psicológica: medo, dissimulação "falando de lado / olhando pro chão"; e "estado" como forma de governo, regime político.
Música 2 - Cálice - Gilberto Gil/Chico Buarque - 1973
Observação: A música, composta em 1973, ficou proibida, sendo gravada apenas em 1978. Na letra há uma referência à tortura sofrida por Stuart: "Minha cabeça perder teu juízo/ Quero cheirar fumaça de óleo diesel". Chamar atenção para a ambigüidade "cálice / cale-se".
Outras músicas do mesmo período:
- Acorda amor (Leonel Paiva e Julinho da Adelaide - pseudônimo de Chico Buarque -, 1974);
- Aquele abraço (Gilberto Gil, 1969);
- Como nossos pais (Belchior, 1976);
- Ensaio geral (Gilberto Gil, 1966)
- O bêbado e o equilibrista (João Bosco e Aldir Blanc, 1979);
- O que será (à flor da terra) (Chico Buarque, 1976)
- Pra não dizer que não falei das flores (Geraldo Vandré, 1968);
- Sinal Fechado (Paulinho da Viola, 1969)
Peça que identifiquem nas músicas aquilo a que podem estar se referindo. Dê algumas pistas, se achar necessário. Depois, sugira que pesquisem a letra toda, descubram as que foram censuradas e por quê, e façam outros comentários sobre elas. Proponha, ainda, que escrevam uma pequena biografia sobre seus autores, destacando algumas composições que fizeram na década de 1960 e relacionando-as ao período.
Se possível, coloque a música para ouvirem. Sugira que, em grupos, aprendam e apresentem essas músicas para a turma. Caso não consigam cantá-las, ou não queiram, proponha a realização de um jogral.
Explore as canções do filme e da época, a partir do contexto em que estavam inseridas.
Sugira que ouçam a música escolhida, procurem dados biográficos sobre o autor e compositor, verifiquem a data em que foi composta e relacionem a letra a algum acontecimento, emoção, ideologia.
Proponha que entrevistem pais, avós ou tios (dependendo da faixa etária desses parentes) e perguntem que músicas brasileiras ouviam na época. Se eles têm LP ou CD com tais músicas. Depois, que escutem e selecionem uma música e, se possível, tragam para toda a turma ouvir. Faça um sarau. Deixe que comentem o que acharam, de quais músicas gostaram mais, se entre as apresentadas alguma era de protesto. Selecione uma delas e peça que pesquisem o movimento musical ao qual a música pertence, etc.